MEU MUNDO

sábado, 26 de setembro de 2020

Acordei e mais uma vez nenhum sinal de mim. 

Vinte e quatro horas de sono não são o suficiente 

para afundar os cadáveres que 

flutuam no mar nebuloso de pensamentos. 

Desde que essa pandemia começou eu me desconheço. 

Me vejo correndo em círculos dentro de uma caixa, 

brigando com energias de futuro e passado 

que paralisam o presente.


O roteiro dos próximos dias, 

será me contemplar doente, solitário e infeliz.

Até que isso passe e eu compreenda,

que tudo é processo, nada é fim.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

 O excesso é meu 
maior problema. 

"Ostra feliz não faz pérola"

 


"Fica viva que eu tô viva"

Essa foi a promessa que fizemos uma para a outra.

Ambas virginianas, mas carregando no peito

uma sede de justiça. 


Nada de ordem,

e toda desordem para desafiar a razão

que tanto nos fez sangrar.


Nossa loucura é amor,

é mudança que muda

constantemente de direção,

só não muda a promessa.


Nos encontramos e 

nos olhamos pela primeira vez 

em uma encruzilhada.

No chão e magia de Olinda

e também dos nossos sorrisos.


Entre uma palavra 

que saia do peito e outras,

veio o fato 

de que eu estava lendo

 "ostra feliz não faz pérola"

de Rubem Alves. 


Esse livro mudou a minha vida

assim como esse encontro.

Assim como nossas lutas.

Assim como nossa promessa.


E em seu corpo, 

havia tatuado, algo,

que perfeitamente se 

encaixava 

na metáfora da ostra. 


Da dor que é se refazer 

tantas e tantas vezes.

Do canto triste que é preciso ecoar

para que a pérola possa existir 

e servir de alimento.


Há corpos que carregam

potentes espíritos.

Há espíritos que vêm

 para cuidar de

outros e ser também

cuidado.


Ela sempre vem,

cada palavra encaixe.

Cada cuidado, encaixa.

Cada bronca, para

que eu saísse 

da caixa.


Estamos vivas,

pulsamos vida.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Rotas de fuga


Tudo fora de controle,
como teve que ser.
Controles são para
aparelhos.

Assim como 
as várias formas 
de amor são para
os seres humanos.

A vida me pregou
peças.
Levou-me a lugares,
inimagináveis.
Nem se eu pudesse
projetar ao máximo, 
saberia
dos lugares por
iria passar.

Com os olhos
de espanto,
percebo que
em certa medida
eu sempre fui
órfão.

A única que nunca
me abandonou
foi a vida,
a estrada.
O eterno
remendar-se.

Sou filha
daquilo que 
não tem
face.
E por isso
eu a crio.

Não me venham
com essa de 
explosões
complexas.
Não há nada
mais complexo
que nascer e 
morrer.

As dúvidas que
moram em tudo
o que nasce e se 
destrói, são
processos
e eles me bastam.

Bem mais que
entender,
me deixem 
viver.

As pedras, as flores,
minhas lagrimas,
a saudade,
o futuro,
o passado,
a água corrente
-presente-
ainda explodem.

Não me enquadrem
como sujeito,
tão pouco como
um ser "normal".
Tenho nojo 
da normalidade
e a nego
ao respirar.

Ser normal
no palco
da existência
é o mais 
burro disfarce.


quinta-feira, 7 de novembro de 2013

É só viagem





Estou aprendendo a sentir diferente.
De modo que o trago, o caminho e o sorriso,
se situam entre cenas paralelas.

Algo me diz que há existência
dentro do que dizem
não existir.

Não seria o amor,
a força mais potente 
do que não se vê?

Dessa forma,
a vida não se vai.
E cada poeira cósmica
esconde seus segredos.

Viver se torna um leque
de possibilidades
saltando aos olhos.
E por isso fazer escolhas é
tão difícil.

O segredo de estar na terra,
é não se sentir apenas parte
dela.

Somos parte de um processo
maior, que até hoje
ninguém entendeu.

Só quando nos dermos conta
de que nada no mundo se mede.
Compreenderemos a verdadeira
matemática das coisas.
Compreenderemos não, sentiremos!

Se desprender das algemas terrestres
e naturalmente reconstruir o seu
próprio mundo é
o que chamam de loucura.
Eu insisto: há cura em ser louco.

Eu não acredito que o mundo
possa se resumir
ao trabalho, à ciência e aos 
sonhos.
E se eu quisesse viver sonhando
com o nada?

Existem lentes,
e pílulas,
que criam necessidades
e nos afastam
de tantas outras possibilidades.

Tenho medo de chegar ao fim
da vida e dizer:
Como assim? Apenas isso eu
vivi?

Por isso insisto em outras 
maneiras
de ser, de dançar,
de falar,
de amar.

Já desisti 
da linearidade,
da bussola, 
da estrutura,
da estabilidade,
da branca paz.

Se é que a vida,
não é apenas
uma viagem de alguém 
de um outro mundo.

Muito respeito ao
falar de "alucinação".
Não é mesmo,
Belchior?

A maioria dos problemas 
humanos são causas do falar 
sobre o que
não se conhece de forma
fatalista.

Por isso, muitas vezes
tenho problemas
com as "questões de opinião".

Que graça tem uma origem
para todos os conceitos
que fundamentam
as nossas verdades?

E o que são
as nossas verdades
para além de escudos,
e justificativas de nossas
escolhas?

Quem foi,
que deixou passar,
por exemplo,
a ideia de que
dinheiro
vale mais que a vida?

Eu quero paisagens,
fotografias,
colagens,
passarinhos,
amantes mais
que amores.

Eu quero sabores,
dores,
amores,
mel de abelha
e de humanos
na ponta da língua.

Eu quero vida em sua
potencialidade.

Eu não quero sociedade,
quero uma outra coisa,
algo muito além dela.

Eu quero não chorar
por amor, pois amor não fere.

Eu quero o direito de discordar
e ensinar aos meus pais
a serem filhos e a
reescreverem
a sua história
sendo netos.

Muito mais do 
que um território
que me limite.
Muito mais que um mapa
que me situe.

Você pensa todos os dias
que células morrem
e nascem dentro de você?
Mas isso não deixa acontecer.

Nem tudo o olhar alcança.
Mas há uma força maior
no permitir-se
ao desconhecido.

Você se conhece?
Não, você não entendeu!
Você se conhece para
além dessa necessidade?

Obrigado a quem
quer que seja
pelo sofrimento existir e
pela dor também.

Sem elas,
eu jamais saberia
sobre o mundo dos 
cavalos marinhos.

Nem teria achado baús de
riquezas no mundo dos loucos.
Nem tão pouco,
conhecido um pouco,
do que a arte pode 
fazer,
na vida de quem naturalmente
sente o mundo dentro de si.

Silas